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Artigos Segunda-feira, 17 de Março de 2025, 22:00 - A | A

Segunda-feira, 17 de Março de 2025, 22h:00 - A | A

Arilson Aparecido Martins

O Seminário Episcopal da Conceição em Cuiabá: Berço da Educação Secundária em Mato Grosso (1858-1880)

Por Arilson Aparecido Martins

No século XIX, a Província de Mato Grosso enfrentava desafios significativos no campo educacional, carecendo de instituições de ensino que atendessem às necessidades de sua população. Nesse contexto, a fundação do Seminário Episcopal da Conceição, em 1858, representou um marco histórico, estabelecendo-se como o primeiro estabelecimento de ensino secundário da região. Este artigo explora a trajetória do seminário entre 1858 e 1880, destacando suas características físicas, pedagógicas e seu papel na formação de alunos que integrariam a elite mato-grossense do início do século XX.  

A iniciativa de fundar o Seminário Episcopal da Conceição partiu de Dom José Antônio dos Reis, primeiro bispo de Cuiabá, que assumiu a diocese em 1833. Percebendo a carência de instituições educacionais na província, Dom José idealizou um seminário que pudesse formar não apenas clérigos, mas também jovens da elite local, preparando-os para funções administrativas e políticas. A construção do edifício teve início em 7 de dezembro de 1858, ao lado direito da Igreja Nossa Senhora do Bom Despacho, sob a supervisão do Engenheiro Major Pedro Heitor e do Capitão Antônio de Cerqueira Caldas.  

O Seminário foi erguido no alto da colina do morro do Bom Despacho, em Cuiabá,  sua arquitetura neogótica reflete as características do período colonial brasileiro. As paredes, com até um metro de espessura, foram construídas utilizando técnicas como taipa de pilão e adobe. As janelas e portas da fachada possuem arcos ogivais, e o edifício conta com um pé-direito de sete metros, distribuído em dois andares com cobertura de telhas cerâmicas. Esses detalhes arquitetônicos não apenas conferiam imponência ao edifício, mas também asseguravam sua durabilidade e resistência às intempéries.  

Seminário

 

O currículo do Seminário Episcopal era abrangente, incluindo disciplinas como filosofia, latim, grego, francês, retórica e literatura, além da formação teológica. Essa estrutura curricular visava não apenas à formação de sacerdotes, mas também à preparação de jovens para ocupar posições de destaque na sociedade. Durante mais de duas décadas, o Seminário dominou o campo da educação teológica e secundária em Mato Grosso, contribuindo significativamente para a formação de uma elite letrada regional.  

Às suas aulas assistiram estudantes que se tornaram figuras de grande projeção no cenário social e político de Mato Grosso e do Brasil. Para se ter uma ideia da importância dessa Instituição de Ensino, importa referir que pelas suas salas passaram Presidentes do Estado (Manoel José Murtinho, Antônio Corrêa da Costa Filho, Joaquim Augusto da Costa Marques, Generoso Pães Leme de Souza Ponce e Pedro Celestino Corrêa da Costa), Senadores da República (Generoso Pães Leme de Souza Ponce, José Antônio Murtinho Filho, José Maria Metello e Pedro Celestino Corrêa da Costa), um Ministro da Fazenda do Governo Campos Sales (Joaquim Duarte Murtinho), um membro da Academia Brasileira de Letras (D. Francisco de Aquino Correia), um Mestre da Escola Militar do Brasil (Almirante João Batista das Neves), juristas (Manuel Escolástico Virgínio, Manoel José Murtinho, José Maria Metello e Luís da Costa Ribeiro), professores (Manoel Escolástico Virgínio, Manoel Peixoto Corsino do Amarante e José Estêvão Corrêa), médicos (Joaquim Duarte Murtinho e Pedro Celestino Corrêa da Costa), engenheiros (Antônio Corrêa da Costa Filho e Joaquim Duarte Murtinho), além de muitas outras relevantes figuras que deram um imensurável contributo para o engrandecimento, modernização e transformação da sociedade mato-grossense.  

Ao longo de sua história, a instituição enfrentou diversos desafios que exigiram adaptações em sua função original. Durante a epidemia de varíola em 1867, por exemplo, o edifício foi transformado em enfermaria para atender os acometidos pela doença. Em 1906, durante conflitos políticos locais, serviu como quartel-general, evidenciando sua importância estratégica na cidade.  

Seminário

 


 

Uma curiosidade interessante é que, em 1922, o arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa transferiu sua residência para o seminário, onde permaneceu por 34 anos até seu falecimento em 1956. Nesse período, o prédio também abrigou o Instituto Histórico e o Centro de Letras da província, tornando-se um centro de produção intelectual e cultural. O Seminário Episcopal da Conceição não apenas serviu como instituição educacional e religiosa, mas também adaptou-se às necessidades da comunidade ao longo dos anos, desempenhando múltiplas funções sociais. Sua história reflete a evolução cultural e política de Mato Grosso, consolidando-se como um símbolo da resiliência e da identidade regional.

Arilson Aparecido Martins Possui Graduação em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (1997), Mestrado em Educação pela* *Universidade Federal de Mato Grosso (2000) e Doutor em Educação pelo Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (validado pela Universidade de São Paulo - USP, 2015), área de especialização em História da Educação. Suas pesquisas centram-se principalmente no âmbito da História da Educação, com ênfase no ensino secundário e religioso no Brasil (Século XIX). Atualmente é professor da disciplina de História, pertencendo ao quadro efetivo da Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso (SEDUC-MT); lecionando atualmente no Colégio Estadual Liceu Cuiabano.